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Abelhinhas Voluntárias: união entre sustentabilidade e humanidade transforma embalagens em acolhimento

Grupo piracicabano reutiliza caixinhas Tetra Pak na confecção de esteiras térmicas para pessoas em vulnerabilidade

Era uma tarde de 2021 quando Alice Oriani assistia à reportagem na televisão sobre o reaproveitamento de caixinhas Tetra Pak na produção de esteiras térmicas. Sem grandes pretensões, virou-se para o marido e disse: “vou fazer”. Juntou embalagens de leite e tentou costurá-las. Não deu certo. A agulha quebrava. Colocou uma mais grossa. A linha estourava. Diminuiu a tensão. Tentou de novo e mais algumas incontáveis vezes. Conseguiu. Passou a pedir caixinhas para as amigas, que também quiseram ajudar na produção. Rapidamente, tudo ganhou um ritmo de “zumzumzum” solidário. Como abelhas em comunicação, uma trazia outra. Quem não sabia costurar, se voluntariava para cortar ou ajudar na higienização. Quando percebeu, Alice estava com um pequeno grupo trabalhando em sua garagem.

Assim surgiu a Abelhinhas Voluntárias, entidade que, com consciência ambiental, promove um impacto social direto e comovente ao reutilizar embalagens Tetra Pak na confecção de esteiras térmicas. Toda a produção é doada para pessoas em situação de vulnerabilidade. Hoje com sede própria no Lar dos Velhinhos de Piracicaba, o projeto conta com quase 50 voluntários coordenados por Alice e suas fiéis “mãos direitas”: Valéria Patriani e Marisa Gomes.

Apenas no ano passado, a Abelhinhas Voluntárias produziu 751 esteiras com mais de 26 mil caixinhas reaproveitadas, que deixaram de ir para o lixo ou para cooperativas de reciclagem, onde demandariam recursos como água e energia. Em 2024, foram 738 esteiras — 25.830 embalagens.

As esteiras térmicas são formadas por 35 caixinhas costuradas e têm o tamanho padrão de 180 por 90 centímetros. Possuem acabamento em tecido, alças e tiras que amarram. São ideais para pessoas em situação de vulnerabilidade por não ficarem molhadas em caso de chuva e serem de fácil higienização. Além do isolamento térmico — com o alumínio voltado para cima, retêm o calor; para baixo, isolam.

A mudança para uma sede maior — ou “colmeia”, como chamam — ocorreu para “salvar seu casamento”, brinca a fundadora. “Recebemos doações de tecidos da loja Kacyumara. De repente, um caminhão-baú enorme estacionou na porta da minha casa descarregando três toneladas de retalhos de soft. Ficamos muito contentes, claro. Além das esteiras, faríamos roupas e cobertores. Mas não podia ficar com tudo aquilo na minha garagem. Passamos a procurar algum lugar com melhor estrutura, tanto para costurarmos quanto para armazenarmos os materiais”. A colmeia provisória na casa de Alice durou um ano. As Abelhinhas conseguiram um espaço na Igreja Renovação Carismática, antigo Dispensário dos Pobres, onde ficaram por dois anos até conquistarem sua sede oficial em um dos chalés do Lar dos Velhinhos. “Viemos para cá em setembro de 2024 e, com o crescimento do grupo, anexamos a casa ao lado também”, lembra.

As esteiras são doadas por meio de parcerias com outras instituições que as levam até pessoas em situação de vulnerabilidade. A coordenadora Marisa Gomes reforça que o lema do grupo é “fazer o bem sem olhar a quem”. “O ideal seria não existir ninguém dormindo nas ruas, passando frio, sem cobertores ou sem cama. Mas, se existem, vamos fazer o possível para ajudá-los como podemos”, explica.

No estado de São Paulo, a Abelhinhas Voluntárias doou esteiras para a capital, Piracicaba, litoral norte e Cruzeiro da Mantiqueira, além de Rio do Iguaçu, no Paraná, e Brasília. Durante as enchentes de 2024, no Rio Grande do Sul, o grupo enviou, em parceria com o Exército de Formiguinhas, 160 esteiras para os desabrigados.

Geografia realmente parece não ser um problema para as Abelhinhas. A solidariedade cruzou o Atlântico e chegou a Portugal, onde uma das voluntárias mora. A esteticista Maria José Borges soube por meio de uma amiga do projeto e quis participar. “Comecei a falar com minhas clientes para juntarem caixinhas. No início, pensei em distribuir as esteiras sozinha. Depois, conheci duas pessoas de associações diferentes que gostaram da ideia e hoje distribuem, enquanto eu confecciono. Tem sido bastante gratificante”, afirma.

O sentimento de gratificação é muito citado entre os voluntários, que se reúnem nas tardes de segundas e quartas feiras para a produção. É palpável a energia da colmeia — o som das máquinas de costura se mistura ao burburinho e gargalhadas que não param. Madalena Pacheco, uma das costureiras mais antigas do grupo, destaca o quanto esses encontros têm sido vitais: “Nos tornamos uma família. Quando tem trabalho, é uma festa, adoro estar com eles. Se alguém não vai, a gente sente falta, é uma alegria estarmos reunidos”. Aposentada, tornou-se uma abelhinha por meio de sua filha, que a convidou para participar. “Eu queria costurar as caixinhas, mas não tinha máquina de costura portátil. Ela e meu outro filho fizeram surpresa e me deram de presente”, declara.

A filha, Renata Rezende, não costura, trabalha cortando e contando as caixinhas. “Me tornei uma abelhinha por achar importante ocupar meu tempo em prol daqueles que mais precisam. Amo a colmeia e tudo que ela representa na minha vida e na de tantas pessoas que recebem as doações que fazemos”, explica.

A própria “abelha rainha”, Alice, confessa que, apesar de o projeto ter como principal objetivo a reutilização de materiais e a assistência às pessoas em vulnerabilidade, os próprios voluntários são os que mais se beneficiam com os encontros. “Muitas coisas conquistamos, ajudamos muita gente, mas sou eu a mais agraciada com tudo isso. Ganhei verdadeiros amigos, que comigo caminham para que cada vez mais possamos fazer o bem sem olhar a quem”, conclui.

Como ajudar?
A Abelhinhas Voluntárias aceita doações de caixinhas Tetra Pak abertas e higienizadas. O ponto de coleta é na portaria do Lar dos Velhinhos de Piracicaba.

Ana Carolina Miotto
MTB 0072384/SP

 


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