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As cervejarias piracicabanas e o compromisso ambiental

A indústria cervejeira brasileira vive um momento de consolidação de práticas ambientais responsáveis que dialogam diretamente com as exigências contemporâneas de sustentabilidade, transparência e impacto social. Esse movimento ganha ainda mais força em Piracicaba com o recém lançamento do programa SustainBeer, iniciativa da CPLCerva (Cadeia Produtiva Local da Indústria de Máquinas, Equipamentos e Serviços para Cervejarias), que nasce em consonância com uma agenda já incorporada por grande parte do setor e evidenciada no Relatório Consolidado de Práticas ESG – Sustentabilidade na Indústria Cervejeira 2025, elaborado pelo Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv).

Terceiro maior produtor de cerveja do mundo, o Brasil conta atualmente com quase duas mil cervejarias espalhadas por 790 municípios e uma cadeia produtiva que responde por cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Diante dessa relevância econômica, o compromisso coletivo com a sustentabilidade tem se mostrado estratégico para garantir competitividade, atender consumidores mais conscientes e reduzir impactos ambientais e sociais.

Presente no evento de lançamento do SustainBeer, Paulo de Tarso Petroni, diretor-geral da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil) e do Instituto Rever, afirmou que o setor já apresenta resultados relevantes, especialmente entre as grandes companhias, que têm ampliado metas de descarbonização, reduzido consumo de água e investido em energia renovável. No entanto, ele observa que ainda há desafios significativos para garantir que os avanços sejam uniformes. “Precisamos padronizar práticas entre empresas de diferentes portes e integrar de forma mais efetiva toda a cadeia — dos fornecedores agrícolas à logística e distribuição”, destacou.

Entre os avanços do setor estão campanhas educativas e ações de conscientização. A agenda também se fortalece com a economia circular, na qual o Brasil se mantém como referência mundial na reciclagem de latas de alumínio, com índice superior a 97%, e avança no desafio da reciclagem do vidro e do uso de embalagens retornáveis, que já representam mais de 80% do portfólio de grandes cervejarias.

Outros os números positivos reforçam a evolução do setor: redução de cerca de 40% no uso de água em 15 anos, avanço no reuso hídrico, transição para energia elétrica proveniente de fontes renováveis e investimentos na diminuição da pegada de carbono, inclusive com a adoção de frotas elétricas e biocombustíveis.

“O SustainBeer nasce ancorado em evidências concretas dos avanços ambientais já alcançados pelo setor cervejeiro brasileiro. No início da década passada, o índice médio de consumo superava 4,0 litros de água para cada litro de cerveja produzido. Atualmente, a média nacional encontra-se em torno de 2,6 litros de água por litro de cerveja, posicionando o Brasil entre os países mais eficientes do mundo nesse indicador. Esse esforço contínuo resultou em uma economia hídrica acumulada de cerca de 160 bilhões de litros de água, volume que evidencia o impacto ambiental positivo das transformações tecnológicas e operacionais implementadas pelo setor”, informa Carlos Alberto Zem, gestor da CPLCerva e assessor de projetos especiais do Simespi, sindicato patronal das indústrias metalúrgicas, mecânicas de Piracicaba e região que mantém o projeto.

Em Piracicaba, esse cenário também se apresenta como um caminho possível e necessário para as cerca de 15 microcervejarias instaladas na cidade que vem se consolidando como polo cervejeiro no interior paulista. Para se adequarem às práticas ambientais exigidas atualmente, essas produtoras de menor escala podem adotar medidas progressivas e compatíveis com sua realidade operacional. Entre elas estão o controle e a redução do consumo de água, com sistemas simples de reuso para lavagem e resfriamento; e a implantação de coleta seletiva e logística reversa para embalagens, especialmente vidro e alumínio.

“O uso de embalagens retornáveis, a priorização de fornecedores locais — reduzindo emissões no transporte — e a migração gradual para energia solar ou contratos de energia renovável também figuram como alternativas viáveis. Além disso, ações de educação ambiental, incentivo ao consumo responsável e parcerias com cooperativas de reciclagem locais fortalecem o impacto positivo”, disse Petroni.

Bagaço em excesso

A produção de cerveja também gera um grande volume de bagaço do malte que, inclusive, é o principal resíduo sólido do processo cervejeiro, representando cerca de 85% do total. Estima-se que, para cada 100 litros de cerveja produzida, são gerados aproximadamente 20 kg de bagaço de malte.

Porém, esse subproduto que pode ser reaproveitado como ração animal pois é rico em proteínas e fibras, além do alto valor nutricional, tem tido um destino bem adequado pelas cervejarias piracicabanas. “Praticamente todas doam esse insumo para produtores rurais que a utilizam como adubo em suas plantações. Aqui na Panela Cervejeira, onde produzimos a Sexto Sentido, são acumulados 1200 quilos ao mês”, informa o bier sommelier Calebe Moura.

Nas cervejarias HZB e Peixe-Para as sobras da produção de cerveja são destinadas para fazendeiros e sitiantes da região que alimentam suas criações com o bagaço. “Geramos cerca de uma tonelada de bagaço ao mês e encaminhamos tudo para um criador de porcos”, afirma Rodrigo Gimenez da HZB.

Já a Cevada Pura produz entre três a cinco toneladas mês e o objetivo é o mesmo: uma fazenda para alimentação animal. “Cada brassagem aqui vai além do copo: o bagaço de malte ganha novo destino no campo, alimentando ruminantes e transformando a cerveja em um ciclo sustentável do grão à mesa”, disse o proprietário Alexandre Augusto Peres Moraes, o Xandão da Cevada.

 

Paes e bolos

O bagaço de malte ainda pode ser ingrediente na cozinha e pode virar pães, bolos, biscoitos, massa de pizza e salgados. É o que faz o casal formado por Camila de Souza Guedes Bahia e Robelio Bonora Neto, que produzem a cerveja artesanal Lei Seca e, com a sobra da cevada usada na produção de cerveja, fazem pães. Após a separação do malte, o restante do material retido durante a filtragem é transformado em farinha, a rica matéria prima utilizada para se fazer os pães.

“Temos uma loja virtual no Instagram para a venda de pães de panificação artesanal e que é feito com o resíduo de malte que sobra da filtragem no processo de fabricação da cerveja”, confidenciou Camila.

Ao alinhar crescimento econômico, identidade local e responsabilidade socioambiental, as microcervejarias de Piracicaba têm a oportunidade de integrar a agenda ESG do setor de forma prática e escalável, reforçando que a sustentabilidade não é exclusividade das grandes indústrias, mas um compromisso compartilhado em toda a cadeia cervejeira.

Dessa forma, o lançamento do SustainBeer simboliza não apenas uma iniciativa local, mas também um convite para que produtores de todos os portes avancem juntos. A indústria cervejeira brasileira demonstra que é possível gerar valor, reduzir impactos e fortalecer comunidades, brindando não apenas resultados econômicos, mas um futuro mais sustentável para o país.

 


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