Vinil, polaroid, fita cassete e diários de papel: entenda por que a Geração Z está trocando o algoritmo pela experiência.
Por Sabrina Scarpare


Estamos vivendo num mundo hiperconectado e isso não é novidade pra ninguém. Somos nós mesmos, seres humaninhos, que criamos e usamos de tanta tecnologia. Estamos cada vez mais unindo a nossa inteligência humana com a artificial.
O ano de 2026 começou com mais tecnologias, mais inovações, mais transformações. Mas também traz consigo um (re)ajuste estrutural na relação da sociedade com a tecnologia. Esse tema me chamou atenção já o ano passado, quando meu sobrinho Oliver, com quase 18 anos, contou que havia comprado um toca-disco e um disco de vinil para ouvir. Aquilo me fez parar pra pensar: “O quê?”.
A Geração Z está nos mostrando muitas coisas!
Um parêntese aqui! Para quem não sabe, a Geração Z (também chamada de “Gen Z” ou “Zoomers”) é o grupo de pessoas nascidas aproximadamente entre 1997 e 2012, ou seja, quem tem hoje em torno de 13 a 28 anos.
Voltando…
Mas o mais interessante é que a pergunta que ecoa nas comunidades que lideram esse movimento não é “não quero usar tecnologia”, mas sim “como quero usar a tecnologia”. A Forbes nomeou 2026 como o ano oficial da vida analógica e o fenômeno vai muito além da nostalgia.
Nostalgia e necessidade contemporânea
Por décadas, a promessa tecnológica foi a de simplificar a nossa vida. Mas o que muitas pessoas sentem agora é o oposto: uma sobrecarga de estímulos, algoritmo que decide o que ver (e o que não quer), ouvir e pensar, e uma sensação crescente de que a própria autonomia foi terceirizada para uma máquina. Eu mesma passo horas conversando com a IA e pedindo para ela me ajudar em diversas coisas (atire a primeira pedra).
Mas voltando à Geração Z, pesquisas e analistas identificam nessa geração uma “crise de autoria”: a sensação de que gostos, opiniões e até emoções são sugeridos por plataformas, não vividos de forma genuína e humana. Nesse contexto, escrever à mão em um diário de papel, revelar um filme fotográfico ou montar um quebra-cabeça se tornam atos quase subversivos e uma forma de recuperar o controle sobre a própria experiência aqui na terra.
Os números que confirmam a virada
O movimento analógico não é apenas uma percepção cultural, ele se traduz em dados concretos. As buscas por “hobbies analógicos” na rede americana de lojas de artesanato Michael’s, por exemplo, cresceram 136% nos últimos seis meses. As vendas de kits manuais subiram 86% em 2025, com projeção de alta adicional de 30% a 40% para este ano. Minha mãe é uma super adepta ao artesanato!
No universo musical, os Estados Unidos venderam quase 43 milhões de discos de vinil em 2023 (meu sobrinho mora no Estado de Washington, nos USA), um crescimento consistente que só acelera (olha lá ele na estatística). As vendas de vinil cresceram mais 17% só em 2025, impulsionadas principalmente por jovens abaixo de 25 anos. Câmeras analógicas, descartáveis e polaroids voltam às mãos da Geração Z em um ritmo que analistas não previam há poucos anos – agora os artistas estão usando isso em seus shows, não é mesmo? Jornal impresso e livros físicos continuam estáveis ou em leve alta, mesmo com a proliferação de e-books e audiobooks.
No Brasil, o vinil é um caso de sucesso: cresceu 45,6% em 2024 no Brasil, bem acima dos 4,6% registrados globalmente, movimentando R$ 16 milhões, mais do que qualquer outro formato físico. As buscas pelo termo “vinil” cresceram 25% em comparação a 2024, segundo dados do Google.
O que está voltando e os números por trás disso
Pode parecer detalhe, mas cada objeto analógico que está ressurgindo conta uma história sobre o que estamos sentindo coletivamente. Aqui estão alguns exemplos que me surpreenderam na pesquisa:
📼 Fitas cassete
Isso mesmo. A fita que embaralhava dentro do Walkman e precisava ser rebobinada com uma caneta Bic está de volta. As vendas de cassetes nos Estados Unidos mais do que dobraram no primeiro trimestre de 2025 e devem ultrapassar 600 mil cópias até o final do ano. De 2015 a 2022, as vendas cresceram 443%. O motivo? Jovens estão se sentindo enganados pela forma como o streaming funciona: os algoritmos ditam o que ouvir, e nada parece seu de verdade. Com a fita, você possui algo, coloca numa prateleira, segura nas mãos.
📷 Câmeras instantâneas e descartáveis
A Polaroid é talvez o símbolo mais icônico desse retorno. O mercado global de fotografia instantânea foi avaliado em US$ 2,93 bilhões em 2024 e deve chegar a US$ 5,72 bilhões até 2032, crescendo a uma taxa de 8,3% ao ano, impulsionado por Millennials e pela Geração Z, que buscam memórias físicas e tangíveis no lugar de arquivos digitais.
📓 Diários, agendas e papelaria
Escrever à mão virou ato de resistência. Mais de 1,38 bilhão de diários, agendas e planejadores físicos são comprados no mundo todo a cada ano, e 64% dos consumidores globais continuam usando planners de papel mesmo com todas as alternativas digitais disponíveis. Não é exagero dizer que o caderno virou objeto de desejo. No Brasil, as editoras brasileiras registraram crescimento nominal de 3,7% nas vendas em 2024, com faturamento de R$ 4,2 bilhões, produzindo 366 milhões de exemplares.
📚 Livrarias físicas
Barnes & Noble, a maior livraria dos Estados Unidos, estava em colapso há anos. Então algo mudou. A rede abriu quase 70 novas lojas em 2025 e tem mais 60 planejadas para 2026. Ao mesmo tempo, livrarias independentes estão se multiplicando, com 323 novas lojas abertas só em 2024.
No Brasil, uma pesquisa da Visa Consulting & Analytics identificou aumento de 16% no número de transações em livrarias e papelarias no Brasil em janeiro de 2025, comparado ao mesmo período de 2024. Desde o segundo semestre de 2021, cerca de 100 novas livrarias foram inauguradas no país.
O paradoxo inevitável
O risco é que a “slow tech” se transforme em mais um produto de consumo: objetos caros com estética retrô e marketing “disfarçado” de desaceleração. Quando a resistência se torna tendência, ela inevitavelmente é absorvida pelo sistema que tentava questionar.
No fundo, o que 2026 nos mostra é que a tecnologia nunca foi o problema em si, o problema foi a ausência de escolha. O movimento analógico é, antes de tudo, uma afirmação de que as pessoas querem decidir quando estão online e quando não estão. Precisamos também das experiências que os algoritmos não consigam otimizar, senão tudo fica muito chato, concorda?
Fontes: Forbes, CNN Brasil, WGSN, RIAA, Billboard, Statista, American Booksellers Association, Verified Market Research, Jade Times
Até semana que vem!
Eu sou Sabrina Scarpare, jornalista, consultora, mentora de marcas pessoais e escritora da newsletter Comunicação & IA. Toda semana, envio na sua caixa de e-mails informações atuais sobre o tema para te ajudar na clareza da sua comunicação e ficar por dentro dos assuntos sobre marcas, narrativas e IA.

