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A IA na preservação da memória histórica

Tecnologia, história e os novos caminhos para preservar e acessar aquilo que conta quem somos.

No dia 1 de agosto, o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP) celebrou 59 anos de fundação. E eu tive a honra de participar desse evento, no auditório da Acipi, tomando posse como uma dos novos membros da instituição, convite ao qual agradeço imensamente a toda diretoria, em especial ao presidente e amigo jornalista, Alexandre Neder.

O IHGP é uma entidade movida pelo amor à cidade de Piracicaba (minha cidade natal que amo tanto) e à preservação de sua história. É hoje o principal centro de documentação e memória do município e importante fonte de pesquisa para estudantes, jornalistas, historiadores e a população em geral.

Além da posse e das homenagens da noite, tive a oportunidade de palestrar para mais de 200 pessoas sobre o tema “A importância e as possibilidades de ação da IA na preservação da memória histórica”. E foi justamente durante essa preparação que comecei a refletir sobre uma questão que vai muito além da tecnologia: em uma época em que produzimos tanta informação, como podemos garantir que aquilo que conta a nossa história não apenas seja preservado, mas continue acessível e compreensível para as próximas gerações?

Durante séculos, preservar a história significou guardar documentos. Hoje, o desafio é maior: precisamos também conseguir encontrar, compreender e dar acesso ao que guardamos. É nesse ponto que a inteligência artificial começa a mudar a relação da sociedade com seus próprios arquivos.

Mas o que realmente significa preservar a memória de uma sociedade?

A resposta é bastante objetiva: preservar era guardar. Guardar livros, fotografias, jornais, cartas, mapas, registros, manuscritos e documentos.

É claro que isso continua sendo fundamental. Um documento que desaparece dificilmente poderá ser recuperado.

Mas existe uma segunda questão que vem ganhando uma grande dimensão no nosso tempo: de que adianta guardar se não conseguimos encontrar, interpretar ou acessar aquilo que foi guardado?

É justamente aqui que a inteligência artificial começa a provocar uma mudança importante.

O desafio da memória mudou!

Se voltarmos alguns séculos na história, veremos que o problema era produzir registros. Poucas pessoas tinham acesso à escrita. Livros eram caros e difíceis de reproduzir. Fotografias nem sequer existiam. Os registros eram escassos e, muitas vezes, havia poucas cópias de um mesmo documento.

Depois, o desafio passou a ser conservar. Era preciso proteger os documentos da umidade, do fogo, da deterioração, das guerras, das enchentes e de tantas outras ameaças. Hoje continuamos enfrentando esses problemas. A preservação física e digital continua sendo uma tarefa urgente para arquivos, bibliotecas, museus e instituições de memória.

A UNESCO considera o patrimônio documental parte fundamental da memória coletiva da humanidade e destaca que sua preservação precisa estar associada também ao acesso. Mas surgiu um novo problema: estamos produzindo informação em uma escala nunca experimentada pela humanidade. Fotografias, vídeos, áudios, documentos digitais, páginas da internet, mensagens, bancos de dados, jornais digitalizados, registros públicos e assim por diante.

Nunca tivemos tanta memória registrada. E, ao mesmo tempo, nunca tivemos tanta dificuldade para encontrar aquilo que procuramos. O excesso também pode produzir esquecimento e muito ruído.

Guardar já não é suficiente

Imagine um arquivo histórico com milhares de documentos. Agora imagine que grande parte desse material esteja digitalizada. Isso significa que está preservada? Em parte.

Mas ainda podemos ter um problema. Talvez não saibamos exatamente o que existe naquele conjunto, por exemplo, uma fotografia não identificada, ou diferentes documentos relacionados ao mesmo acontecimento estejam catalogados separadamente. Ou ainda um pesquisador precise passar semanas procurando informações que estão espalhadas por centenas de arquivos. É nesse ponto que a IA pode se tornar uma ferramenta extraordinária, não porque ela “conheça” toda a história, mas porque ela pode ajudar a organizar, localizar, relacionar e tornar acessível aquilo que já existe.

Ou seja, a IA não cria a memória, mas ela pode ajudar a revelar o que está dentro dela. Essa distinção é importante.

E se pudéssemos conversar com os nossos arquivos?

Até bem pouco tempo atrás, uma pesquisa histórica funcionava mais ou menos assim: você tinha uma pergunta e precisava descobrir quais documentos poderiam ajudar a respondê-la. Depois precisava localizar esses documentos.

Esse processo continua sendo indispensável. Mas a IA pode reduzir significativamente o trabalho mecânico que existe entre a pergunta e a descoberta das fontes.

Em vez de simplesmente procurar a palavra “ferrovia” em milhares de documentos, por exemplo, poderíamos perguntar: “Quais documentos ajudam a compreender o impacto da chegada da ferrovia na cidade?”

A diferença é enorme. A primeira é uma busca por palavra. A segunda é uma busca por significado. É uma mudança na maneira como nos relacionamos com o acervo.

Mas é preciso cuidado!

Toda vez que uma tecnologia aumenta nossa capacidade, ela também aumenta nossa responsabilidade. Não podemos nos esquecer que a IA não conhece a verdade, ela trabalha com dados, padrões e probabilidades.

Ela pode produzir uma resposta extremamente convincente e, ainda assim, estar errada. Ela pode criar uma informação que nunca existiu e isso se torna especialmente delicado quando falamos de memória histórica.

Hoje já conseguimos produzir com IA fotografias de acontecimentos que nunca aconteceram, pessoas que nunca existiram e documentos que jamais foram escritos. Por isso, a tecnologia não diminui a importância dos historiadores, pesquisadores, arquivistas e instituições de memória. Na verdade, só aumenta, afinal, preservar é pensar no futuro.

É uma discussão que vai longe. A inteligência artificial pode nos ajudar muito nesse caminho, mas ela não deve decidir o que merece ser lembrado.

A IA não faz história.

Quem faz história, somos nós!

 

Até semana que vem 😉

Eu sou Sabrina Scarpare, jornalista, mentora de storytelling e IA para marcas, além de escritora desta newsletter Storytelling & IA para Marcas. Toda semana, envio na sua caixa de e-mails artigos e informações atuais sobre os temas comunicação, storytelling, IA e marcas.

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